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“Ao amanhecer, depois de um sono ruim e breve, Aureliano recobrou a consciência de sua dor de cabeça. Abriu os olhos e se lembrou do menino.
Não o encontrou no cestinho. No primeiro impacto sentiu uma deflagração de alegria, achando que Amaranta Úrsula tinha despertado de sua morte para cuidar do menino. Mas o cadáver era um promontório de pedras debaixo da manta. Consciente de que ao chegar tinha encontrado aberta a porta do quarto, Aureliano atravessou a varanda saturada pelos suspiros matinais do orégano, e apareceu na sala de jantar, onde ainda estavam os escombros do parto: o panelão grande, os lençóis ensanguentados, os vasos cheios de cinza, e o retorcido umbigo do menino na fralda aberta em cima da mesa, ao lado das tesouras e do cordão de seda. A ideia de que a parteira tinha voltado para pegar o menino durante a noite proporcionou-lhe uma pausa de sossego para pensar. Derrubou-se na cadeira de balanço, a mesma onde Rebeca sentava-se nos tempos originais da casa para dar aulas de bordado, e em que Amaranta jogava xadrez chinês com o coronel Gerineldo Márquez, e em que Amaranta Úrsula costurava a roupinha do menino, e naquele relampejar de lucidez teve consciência de que era incapaz de aguentar em cima da alma o tremendo peso de tanto passado. Ferido pelas lanças mortais das nostalgias próprias e alheias, admirou a impavidez da teia de aranha nos roseirais mortos, a perseverança da erva daninha, a paciência do ar no radiante amanhecer de fevereiro. E então viu o menino. Era um pedaço de carne inchada e ressecada, que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente até suas tocas pela vereda de pedras do jardim. Aureliano não conseguiu se mexer. E não porque estivesse paralisado pelo estupor, mas porque naquele instante prodigioso as chaves definitivas de Melquíades se revelaram, e viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no tempo e no espaço dos homens: O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore e o último está sendo comido pelas formigas.
Em nenhum ato de sua vida Aureliano foi mais lúcido do que quando esqueceu os mortos e a dor de seus mortos e tornou a pregar as portas e as janelas com as cruzetas de Fernanda para não se deixar perturbar por nenhuma tentação do mundo, porque então sabia que nos pergaminhos de Melquíades estava escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as plantas pré-históricas e os charcos fumegantes e os insetos luminosos que haviam desterrado do quarto qualquer vestígio da passagem dos homens pela terra, e não teve serenidade para levá-los até a luz, mas ali mesmo, de pé, sem a menor dificuldade, como se tivessem sido escritos em castelhano debaixo do resplendor deslumbrante do meio-dia, começou a decifrá-los em voz alta. Era a história da família, escrita por Melquíades nos seus detalhes mais triviais, com cem anos de antecipação. Tinha redigido em sânscrito, que era sua língua materna, e havia cifrado os versos pares com os códigos pessoais do imperador Augusto, e os ímpares com códigos militares da Lacedemônia. A chave final, que Aureliano começava a vislumbrar quando se deixou confundir pelo amor de Amaranta Úrsula, tinha sua raiz no fato de Melquíades não ter ordenado os fatos no tempo convencional dos homens, mas concentrado um século de episódios cotidianos, de maneira que todos coexistissem num mesmo instante. Fascinado pelo achado, Aureliano leu em voz alta, sem saltos, as encíclicas cantadas que o próprio Melquíades fizera Arcádio escutar, e que na realidade eram as predições de sua execução, e encontrou anunciado o nascimento da mulher mais bela do mundo que estava subindo aos céus de corpo e alma, e conheceu a origem dos gêmeos póstumos que renunciavam a decifrar os pergaminhos, não apenas por incapacidade e inconstância, mas porque suas tentativas eram prematuras. Neste ponto, impaciente por conhecer sua própria origem, Aureliano deu um salto. Então começou o vento, morno, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às nostalgias mais tenazes. Não o percebeu, porque naquele momento estava descobrindo os primeiros indícios de seu ser num avô concupiscente que se deixava arrastar pela frivolidade através de um páramo alucinado, à procura de uma mulher formosa que ele faria feliz. Aureliano reconheceu-o, perseguiu os caminhos ocultos de sua descendência, e encontrou o instante de sua própria concepção entre os escorpiões e as borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um peão de oficina saciava sua luxúria com uma mulher que se entregava a ele por rebeldia. Estava tão absorto, que tampouco sentiu a segunda arremetida do vento, cuja potência ciclônica arrancou as portas e as janelas dos umbrais, destroçou o telhado da varanda oriental e desenraizou os alicerces. Só então descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã e sim sua tia, e que Francis Drake tinha assaltado Riohacha somente para que eles pudessem se buscar pelos labirintos mais intrincados do sangue, até engendrarem o animal mitológico que haveria de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando conforme vivia esse instante, profetizando a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.”
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